Assim como nos filmes de suspense, quando a mocinha foge do bandido e todos que assistem o filme ficam com vontade de torcer para que ela corra na direção oposta, eu reencontrei meus fantasmas do passado num mesmo dia.
Acordei cedo e abrindo o armário, vi um chaveiro no fundo do armário que brilhava intensamente, assim como a lua numa noite de vasta escuridão. Como um susto, me vi teletransportada para um dia nublado, num dia que estava igual ao clima, instável. Naquele dia experimentei o prazer,o medo e o abandono. Naquele dia, ganhei esse chaveiro como recordação para os dias que nunca mais deviam ser lembrados e de repente voltei ao meu quarto segurando aquele mesmo chaveiro à esmo na mão direita, com o punho fechado. Expirei e joguei no lixo, assim como fiz com todas as lembranças que tentavam me perturbar junto com o dia em que ganhei aquele presente.
Mais tarde, depois de tomar um café da manhã bem light, resolvi encaixotar tudo o que iria junto à mudança, assim pus-me a começar pela parte do escritório, vendo os livros e tudo o mais dentro das gavetas. Encontrei uma carta, tão rara, que conseguiu me sensibilizar de tal maneira que meu rosto congelou. Pensei tê-la jogado fora a muito tempo e não o fiz, pensei que já tivesse superado aquele rombo enorme dentro de mim, mas me enganei. Sabia que no fundo todas as palavras escritas naquela carta um dia pesariam na minha cabeça,e chegado o dia desatei a chorar.
Quando tomada pelas lágrimas, sem já saber o motivo do choro, rasquei a carta e disse que se antes não havia enterrado, pois que agora fosse morto definitivamente. Queria superar essa dificuldade, sendo assim, continuei a olhar os livros da estante. Num momento de objetividade olhei um livro infantil, um livro que eu conhecia muito bem, que aquela pequena menina, de seus cinco anos lembrava muito bem. Aquele livro lembrava o cheiro do café do lanche da tarde, do bolo de fubá que sua vó adorava fazer, lembrava de como era difícil permanecer o dia inteirinho sem ver sua amada mãe, que trabalhava duro para garantir um futuro melhor para sua filha, sua filha que esperava anciosamente a noite chegar, não pelo cafuné, mas pelas cobertas aquecidas de sua mãe junto a ti. Como se sentisse aquele cheiro de infância, voltei à tona e passei a mão pela capa carinhosamente, resolvi empacotar com muito carinho aquele livro velho e ultrapassado, percebi que um dia também seria importante na vida de alguém.
Depois de um almoço corrido com salada resolvi brincar com as duas labradoras mais lindas do mundo, rolando pela grama suja e molhada da chuva me sujei da cabeça aos pés e percebi que era melhor ir logo tomar um banho, antes que entardecesse e pegasse um resfriado naquelhe chão úmido.Tomando banho fechei os olhos naquela água morna que caía em meus cabelos, aqueles cabelos que um dia foram tão compridos quanto a minha cintura, que envolviam todo e qualquer vento que se atrevesse passar por ele. Aquele tom castanho, aquele tom nu que nunca tinha sido tingido, que lembrou que foi cortado até as orelhas num momento de rebeldia, pura e simples rebeldia contra o sistema. Comprido e liso? Jamais, que fosse então curto e cacheado! Porque ser do contra sempre fora meu forte.
Terminando o banho, vesti-me e continuei a revirar as antiguidades, agora, nas fotos. As fotos sempre foram uma fraqueza, não pelo passado, mas porque a carga emocional que eu depositava variava de imagem em imagem e não as pessoas em si. Foi quando peguei uma sequencia de fotos de um velho amigo que percebi, percebi o quanto fui egoísta. Que fui incapaz de dar valor àquele momento pelo resto da vida. Como pude esquecer? Como pude acordar todos os dias e não possuir seu número? Seu endereço? Como pude simplesmente abafar um sentimento de algo maior que eu... Tentava refletir, mas sempre que fazia isso fugia da responsabilidade, fugia das obrigações, agora eu via que era necessário encarar. Se foi difícil rasgar, queimar, jogar fora as dores que já não pesavam mais, essa entretanto ia pesar para sempre, pois o erro foi meu. Que indelicadeza achar que as pessoas se esquecem simplesmente, que é só deletar e pronto. Me vi incapaz de dizer perdão, então não me restou outra coisa se não procurar.
Dessa vez não era esquecer, apagar, deletar, jogar fora, queimar, dessa vez eu fazia questão de desenterrar até o último grão de areia, pois se não podemos mudar o que se passou, podemos tentar mudar o esquecimento, podemos superar uma lembrança, podemos tornar algo momentâneo em algo permanente. Sendo assim, permaneço em silêncio até que as últimas caixas sejam empacotadas devidamente, pois a dor de perder é maior do que esquecer.
0 comentários:
Postar um comentário